Gestão
Estratos cognitivos: o mapa de Elliott Jaques que mudou como eu monto time
Durante uns três anos eu achei que time ruim era problema de esforço, de cultura ou de clareza de comunicação. Depois de mapear a Overlens inteira com um consultor externo usando a teoria de Elliott Jaques, eu mudei de ideia: quase todo desempenho ruim que eu já vi foi desalinhamento entre o horizonte de tempo da pessoa e o horizonte de tempo da função. E isso é culpa de quem desenha a função. Ou seja, minha.
Elliott Jaques descobriu que a complexidade de um trabalho é medida em tempo, não em dificuldade
Jaques era um psicanalista canadense que passou décadas dentro de organizações reais. O trabalho de campo mais conhecido dele foi na Glacier Metal Company, na Inglaterra, ao longo dos anos 1950 e 60. Ele saiu de lá com uma pergunta esquisita e uma resposta ainda mais esquisita.
A pergunta: existe alguma medida objetiva do "tamanho" de um cargo? Todo mundo intui que ser diretor é mais complexo do que ser analista, mas ninguém consegue dizer quanto mais, nem em que unidade. A resposta dele foi o time span of discretion: o intervalo máximo de tempo entre o momento em que a pessoa toma uma decisão sozinha e o momento em que essa decisão é avaliada. A medida não tem nada a ver com a duração da tarefa. Ela mede quanto tempo você fica sem feedback, operando no escuro, sustentando a própria aposta.
Isso reorganiza tudo. Um trabalho fica difícil porque exige que você segure uma intenção viva na cabeça por um horizonte longo, sem que a realidade te confirme nada no meio do caminho, e não porque tem muitos passos. A capacidade de fazer isso Jaques chamou de capacidade cognitiva, e ela varia enormemente entre pessoas adultas e competentes. Nada disso se confunde com QI. A partir daí ele descreve os estratos, e aqui a precisão importa, porque a versão diluída que circula em post de LinkedIn é inútil.
Os quatro estratos que importam para quem toca empresa pequena
Estrato 1: dias a três meses
A pessoa opera com um caminho já definido e julgamento direto. O trabalho é "faça isto, deste jeito, e ajuste quando encontrar um obstáculo concreto". O feedback é quase imediato: você edita o vídeo e vê se ficou bom, sobe o card e vê se quebrou. Esse é um estrato de execução com retorno rápido, sem nenhuma inferioridade moral embutida, e boa parte do trabalho valioso do mundo vive aqui. Chamar isso de trabalho fácil é o erro clássico. A exigência existe, ela só se resolve dentro de um horizonte curto.
Estrato 2: três meses a um ano
Aqui aparece o que Jaques chama de processamento diagnóstico acumulativo. A pessoa junta sinais ao longo do tempo até formar uma conclusão, em vez de seguir um caminho pronto. É o estrato de quem toca um processo inteiro: um funil, uma operação de suporte, uma rotina editorial. Ela percebe que "essa métrica vem caindo há seis semanas" antes de alguém pedir o relatório. Precisa aguentar semanas de ambiguidade antes de saber se a leitura estava certa.
Estrato 3: um a dois anos
Este é o estrato de sistema. A pessoa consegue enxergar um caminho inteiro do começo ao fim antes de começar, prever onde vai quebrar e criar caminhos alternativos. É gerência de verdade, a que cuida do sistema em vez de cuidar do organograma. É quem olha para uma esteira de produto e diz, com acerto, "se a gente mudar o preço do degrau de entrada, o gargalo vai migrar para o atendimento em quatro meses". O ciclo de feedback aqui é brutal: você toma a decisão em janeiro e só descobre se foi burrice no ano seguinte.
Estrato 4: dois a cinco anos
Integração de múltiplos sistemas que competem entre si por recurso. Produto, aquisição, entrega, caixa, marca, cada um com sua lógica interna e com o seu próprio ótimo local, e alguém precisa segurar todos ao mesmo tempo sabendo que otimizar um degrada outro. Numa empresa de dez pessoas, esse é essencialmente o trabalho do fundador. E foi aqui que eu tomei o primeiro tapa do mapeamento: eu passava metade do meu tempo operando em estrato 2, porque era confortável e porque o feedback era rápido e gostoso.
Jaques descreve estratos acima disso, até sete ou oito, para corporações gigantes com horizontes de vinte anos. Para quem opera negócio de sete dígitos com time enxuto, isso é folclore. Os quatro primeiros dão conta de tudo.
O mapeamento me mostrou que eu estava contratando currículo e demitindo horizonte
Eu trouxe um consultor externo para mapear o time inteiro, dez pessoas, justamente porque eu não confiava em mim para fazer isso. Não vou entrar em nenhum caso individual aqui, nem citar função com nome, e o motivo não é diplomacia: o resultado individual interessa pouco. A parte interessante é o agregado, e o agregado foi desconfortável.
Duas ou três funções da empresa tinham sido desenhadas com horizonte de tempo que ninguém tinha explicitado. Eu escrevia a vaga descrevendo atividades, coisas como "cuidar do tráfego" e "manter o produto no ar", quando o que eu realmente esperava era um horizonte. Em alguns casos eu esperava que a pessoa antecipasse um problema de doze meses à frente enquanto o combinado, o salário e o escopo diziam claramente "resolva o que está na sua frente esta semana".
Ninguém falha por preguiça com a frequência com que as empresas acham. As pessoas falham porque foram colocadas dentro de um horizonte de tempo que não é o delas, e depois foram avaliadas como se fosse um problema de caráter.
Quando eu revi os desligamentos e os atritos que eu tinha tido nos anos anteriores, praticamente todos encaixavam num dos dois padrões que descrevo abaixo. Em nenhum deles a raiz era falta de esforço. Alguns eram gente tentando muito, do jeito errado, dentro de uma caixa mal desenhada por mim.
Os dois erros de encaixe têm sintomas opostos e igualmente reconhecíveis
Pessoa de estrato menor numa função de horizonte maior gera paralisia. O sintoma clássico é a entrega que simplesmente não sai. A pessoa fica travada, pede reunião de alinhamento toda semana, pergunta muito, produz documento em vez de decisão. De fora parece insegurança ou falta de autonomia, e todo gestor ruim responde com "você precisa se posicionar mais". A leitura correta é outra: a pessoa está sendo obrigada a segurar uma intenção sem feedback por um período mais longo do que ela consegue sustentar, e o organismo dela reage buscando feedback artificialmente, na sua aprovação e em reuniões.
Pessoa de estrato maior numa função de horizonte menor gera tédio e depois saída. Esse é mais caro porque parece bom no começo. A pessoa entrega tudo, entrega rápido, entrega além. Você comemora. Seis a nove meses depois ela começa a criar projetos paralelos, a mexer em coisas que não são dela, a ficar impaciente em reunião. Um ano depois ela sai, e quase nunca fala o motivo real, porque ela mesma não tem vocabulário para isso. Ela dirá "queria um desafio maior", o que soa como frase de entrevista de desligamento e é literalmente a descrição técnica do problema.
Esse segundo caso me custou caro mais de uma vez. E o pior é que a solução intuitiva, dar aumento, não resolve nada, porque nenhum salário alarga o horizonte de uma cadeira. Dinheiro compra alguns meses de paciência e depois a pessoa sai do mesmo jeito, agora mais cara.
Estrato cresce, e é exatamente por isso que o mapa é perigoso
Jaques defendia que a capacidade cognitiva amadurece ao longo da vida adulta seguindo curvas previsíveis. Ele chegou a publicar gráficos de progressão que, honestamente, eu acho a parte mais frágil da obra dele. Determinismo demais, evidência de menos. Mas a parte central eu aceito: estrato não é fixo. Uma pessoa de 25 anos operando em estrato 2 é uma pessoa de estrato 2 hoje, e só hoje.
Isso muda completamente o que você pode fazer com o mapa. Ele funciona como fotografia e estraga como etiqueta. Usar como etiqueta é o pior erro possível, pior do que não ter feito mapeamento nenhum, porque aí você passa a ter uma justificativa de aparência científica para congelar as pessoas onde elas estão.
Na prática, o que eu faço com isso é desenhar transições. Se alguém opera confortavelmente em horizonte de três meses e eu quero levar para um ano, eu não anuncio uma promoção e torço. Eu dou um pedaço de sistema com horizonte de seis meses, com um ponto de checagem explícito no meio, e observo se a pessoa consegue segurar a ambiguidade sem se desorganizar. É lento. Leva um ou dois anos. Mas é honesto, e é a única forma que eu conheço de fazer alguém crescer de estrato sem quebrar a pessoa no processo.
Onde eu uso isso todo dia: no desenho da função, antes da vaga existir
A mudança operacional mais concreta que essa teoria produziu na Overlens aconteceu na escrita de vaga e na definição de escopo. Hoje, antes de abrir qualquer função, eu escrevo uma frase antes de tudo: qual é a decisão mais longa que essa pessoa vai tomar sozinha, e em quanto tempo eu vou saber se ela acertou? Se a resposta for "duas semanas", é uma função de estrato 1 e eu preciso parar de fingir que é sênior. Se a resposta for "dezoito meses", eu preciso aceitar que isso custa caro, que tem pouca gente no mercado, e que eu não vou resolver com um freela.
Isso também mudou como eu penso a estrutura de contratação. Num time majoritariamente PJ, sem exclusividade, que é o modelo que eu uso, funções de horizonte longo são estruturalmente frágeis. Você não pode pedir compromisso de dois anos de alguém que divide a semana entre três clientes. Então o desenho correto é concentrar horizonte longo em pouquíssimas posições e desenhar todo o resto explicitamente curto, com entregas fechadas. Estava fazendo isso por intuição. Agora faço por método, e com o trade-off nomeado: eu abro mão de profundidade distribuída para ganhar flexibilidade de custo.
O terceiro uso é em mim mesmo. Toda vez que eu me pego passando três dias arrumando um funil, eu sei que estou fugindo do estrato 4 para o estrato 2, porque o estrato 2 dá dopamina e o estrato 4 dá angústia. É metacognição aplicada à gestão do tempo próprio: reconhecer em qual horizonte eu estou operando naquele momento e se ele é o meu trabalho de verdade.
A crítica que eu faço à teoria, e que eu ainda não resolvi
Preciso ser honesto sobre o desconforto, porque ele é real e eu não terminei de pensar sobre isso.
Primeiro: a teoria soa determinista. Falar que existe uma capacidade cognitiva que limita o horizonte em que a pessoa consegue operar chega perigosamente perto de dizer que gente tem teto. Jaques defendia que a progressão é previsível, quase biológica, e eu não engulo isso inteiro. Vi gente pular de horizonte rápido demais para caber na curva dele, geralmente depois de um choque: uma sociedade num negócio, um projeto que deu errado feio, uma responsabilidade que caiu no colo sem aviso. Talvez ambiente comprima a curva. Posso estar errado nessa, mas é o que eu observo.
Segundo, e mais grave: mal usada, essa teoria vira casta. É trivialmente fácil transformar "estrato" em classificação social interna, com estrato alto virando elite e estrato baixo virando gente descartável. Já vi consultoria vender isso desse jeito. É uma leitura que destrói time, porque o valor de alguém tem pouca relação com o horizonte em que ele opera. Uma pessoa de estrato 1 excepcional entrega mais valor real do que uma de estrato 3 medíocre, e nenhuma empresa funciona só com gente de horizonte longo. Aliás, empresa cheia de gente de horizonte longo é uma empresa onde nada é executado.
Terceiro: medir isso é impreciso. Eu usei um consultor externo justamente porque a avaliação feita pelo chefe direto se contamina com afinidade, com quem fala bonito em reunião, com quem se parece com ele. Mesmo assim, é estimativa. Tratar como número é ingenuidade.
Por isso a regra que eu adotei é estreita e eu não abro mão dela: estrato é ferramenta de desenho de função, nunca de julgamento de pessoa. Eu uso para perguntar "esta cadeira exige que horizonte?" e "esta cadeira está desenhada de forma coerente?". Eu não uso para dizer o que alguém é. A distinção parece sutil no papel e é a diferença entre uma empresa que encaixa gente e uma empresa que rotula gente.
O que eu levaria daqui se eu tivesse só um parágrafo
Da próxima vez que alguém do seu time estiver patinando, antes de conversar sobre desempenho, faça a pergunta do horizonte: qual é a decisão mais longa que essa pessoa toma sozinha, e quanto tempo passa até ela descobrir se acertou? Se a resposta for maior do que ela consegue sustentar, o que precisa mudar é o desenho da cadeira. E redesenhar cadeira é infinitamente mais barato do que trocar gente boa por gente boa mal encaixada, que é, no fim, o que a maioria das empresas pequenas fica fazendo em loop sem entender por quê.
Esse tipo de raciocínio, pensar em camadas, horizontes e sistemas em vez de causas isoladas, é exatamente o que eu chamo de visão sistêmica e é a base do que a gente constrói na Overlens. Se você quiser puxar o fio, eu escrevi sobre por que aposto em generalistas num mercado obcecado por especialistas e sobre como eu decido o que vale a pena aprender. Tem mais coisa em sobre e no canal.
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